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Divirtam-se!
Desde pequeno sempre gostei de me meter mata adentro e trilhar.
Na praia eu preferia subir pelas pedras e sumir, para desespero de meus pais.
Graças a amizades saudáveis eu adquiri o hábito de trilhar de forma mais disciplinada.
Recentemente eu e a Michele nos unimos a um grupo de trilheiros profissionais e desfrutamos de várias aventuras pelo estado do RJ. Hoje trilhamos habitualmente como se fosse um passeio comum.
Sempre ouvi, ao longo desses anos, de diversas pessoas, que esse contato com a natureza é uma forma de conexão divina, autoconhecimento, encontro com Deus, oportunidade para meditação, etc.
Sempre busquei espontaneamente esse contato e como sou espontaneamente ateu, minha visão dessa atividade é diferente.
Ao atingir o cume, após longa e cansativa trilha, minha sensação é de total pertencimento. Sim, nós pertencemos à natureza e, como animais frágeis, sentimos calor, frio, fome, sede, medo, dor e tudo mais que o ambiente nos aflige.
Somos picados por insetos (já sofri um ataque de vespas), nos ralamos, nos ferimos em espinhos, teias de aranha grudam na cara, pedras quentes nos fritam, se uma chuva nos surpreender, ficamos molhados!
Temos que estar alertas (sim, trilhas têm perigos), temos que respeitar o território dos outros animais. Uma vez inseridos temos que saber que não somos donos do lugar, nem que estamos assistindo por uma tela de TV. Estamos pertencendo ao ambiente, mesmo sendo animais equipados.
Ao atingir o objetivo (lembrando que o lema do trilheiro é: “só o cume interessa”), temos a maravilhosa sensação do alívio, o vento leve no rosto, a vista deslumbrante, o momento de desacelerar... Seria essa a hora da conexão divina? Talvez, mas com os pés doloridos, as costas em frangalhos, a água quase acabando, minha sensação de pertencimento continua.
Você olha para o céu e vê os urubus aguardando alguma carniça, que poderia ser você. Penso na volta, que é o momento de testar se o joelho está bom.
Ao final de tudo, com os participantes cansados e esbaforidos, ansiosos por chegar ao conforto do lar, um questionamento nos vem à mente:
“Quando será a próxima trilha?”
Meu mundo musical está ficando cada vez mais esvaziado de ídolos.
Isso é o que dá ser admirador de gente que está chegando, ou até passando, da terceira idade.
Esta magnífica artista fez parte da minha infância-adolescência “gracias” aos LP’s que meus pais tinham em casa.
Foram eles que tiveram a iniciativa de me levar a um show dela no extinto Hotel Nacional, em São Conrado lá pelos idos de 1982.
Foi neste show que eu, com apenas 14 anos de idade, descobri que precisava usar óculos.
Ficamos numa fila muito afastada do palco e então percebi que alguma coisa não estava muito bem. A imagem estava um pouco sem definição.
Peguei os óculos do meu pai e pronto... ficou tudo nítido!
Combinamos que a cada música um de nós usaria os óculos e foi assim por todo o show.
Essas lembranças me acompanham até hoje (assim como os óculos) e a voz de Mercedes Sosa é, por todos esses motivos, parte essencial da minha memória afetiva.
Duerme Negrita...